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Depois de algum tempo...

Ouça ENQUANTO HOUVER SOL enquanto lê o texto 🎶


Depois de algum tempo, você não faz mais questão de ter razão. Você já não quer mais convencer ninguém de nada, nem provar que seu ponto de vista ou suas escolhas são mais coerentes e sensatas. Depois de algum tempo você conquista uma grande certeza acerca de sua grandeza, e isso lhe dá paz, lhe dá segurança, lhe assegura que está no lugar certo, com pessoas especiais.

Depois de algum tempo, você aprende a se respeitar. A respeitar a imagem que vê refletida no espelho, a tolerar as imperfeições que começam a surgir, a transformar as singularidades do seu corpo em características charmosas. Você aprende a respeitar a necessidade de ficar sozinho, de não ser perfeito o tempo todo, de chutar o balde de vez em quando. Você descobre o que é da sua natureza, do seu feitio, do seu agrado. E consegue lidar bem com isso, sem a necessidade de se justificar por ser quem é.

Depois de algum tempo, você entende que precisa se agradar em primeiro lugar. Entende que só quem está bem consigo mesmo consegue dar o melhor de si, e por isso não se culpa quando impõe limites, quando não aceita aquele convite, quando diz “não” àquela solicitação.

Depois de algum tempo, você faz as malas com facilidade. Tem mais apego às vivências e memórias do que às roupas penduradas no closet e entende que a felicidade não se planeja, se vive. Aprendeu que pode chover na praia ou fazer dias de calor intenso no inverno e por isso aceita a mudança de planos com jogo de cintura e bom humor, do mesmo modo que já não sofre mais quando algo não sai conforme o combinado. Sabe que a vida é feita de banhos de chuva e imprevistos, e que é sinal de sabedoria tolerar o que não dá para transformar.

Depois de algum tempo, você descobre seu valor. Descobre que por trás da sua maluquice, esquisitice e contradição, há alguém que já não pode mais autorizar ser classificada pela fachada. Alguém que amadureceu e fez pactos com o amor-próprio, com a superação dos traumas e decepções, com a cura das mágoas e aflições.

Depois de algum tempo, você só quer um relacionamento sério com a sua paz. Já não se esforça tanto por amizades sem reciprocidade, e não sofre em demasia por aqueles que não querem seguir a estrada ao seu lado. Não força chaves em fechaduras erradas nem tenta calçar sapatos que não lhe servem mais. Aprende a se preservar, a não abrir seu coração para qualquer um, a não dar ouvidos para julgamentos superficiais. Tem convicção de tudo que é capaz, e, acima de tudo, põe pontos finais em tudo o que tira a sua paz…

Texto Autoral:
Fabíola Simões
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Linha M de Patti Smith

Quando me deparei com o livro Linha M, de Patti Smith, na Livraria Cultura, não liguei o nome da autora à rockeira do álbum Horses, de 1975, nem à voz rouca por trás de 'because the night' e 'smells like a teen spirit' — minhas favoritas. Sou péssima com nomes e títulos e eles simplesmente me escapam. Confesso que fui seduzida pela capa que, curiosamente, me remeteu a uma fotografia de Mapplethorpe... fotógrafo-amigo-cúmplice de Patti... esse, sim, eu reconheço em qualquer canto-lugar.

Sem sabê-la autora... li Linha M entre goles de latte e fui sendo tragada para dentro de uma conhecida realidade. Me vi em seus desejos — de ter um café... encontrar um lugar e cuidar dele para ser o que nunca foi... em seus “entulhos de escritor” acumulados numa prateleira: lapiseiras sem grafite, uma velha máquina de escrever, dúzias de papéis e centenas de rascunhos... em seus gestos humanos-bobos de se aborrecer ao chegar ao seu café-particular — o Ino, em Nova Iorque — e... encontrar sua mesa de sempre ocupada por um estranho, e rodar perdida pelo lugar até poder tomar posse do que é seu.

Após terminar a primeira leitura... fiquei com a sensação de que esbarraria em Patti a qualquer momento, em minhas andanças por Moema, ou ao embarcar em um ônibus com destino à Avenida Paulista e, mesmo consciente de que os caminhos da autora são outros, não consegui evitar a sensação de que estava a percorrer o mapa de sua vida... a bordo de qualquer pessoa-personagem em que esbarrava ao atravessar a rua, ao dobrar uma esquina... com o passo despreocupado-largo e a cabeça povoada por longínquos vôos.

Foram muitas as vezes em que ocupei a mesa do meu café entre esquinas e fiquei a observar pessoas, colher restos de diálogos. Conheci rostos-personagens, fiz uma pausa em meus escritos envenenados para ler as páginas de um livro qualquer, entre um gole ou outro de latte. Li capítulos inteiros escritos por Patti ou por mim... riscando o que não me servia.

Percebi que tenho a mesma natureza de Patti... gosto do meu canto, do meu sossego-silêncio de páginas em movimento. Somos a figura-pouco-humana que ocupa sempre a mesma mesa, faz sempre o mesmo pedido e se esparrama um pouco mais a cada gole: livros, cadernos, um copo branco de latte bem feito, o notebook. Não sei como as pessoas me vêem e nem tenho curiosidade a respeito... mas, a minha Patti é a mulher de olhos tristes, pesadas olheiras, movimentos poucos e que a tudo observa-aprende-e-escreve... versos-lembranças-notas-coisas-suas que vão, aos poucos, sujando os guardanapos do lugar.

Ela parte de um Norte que é ela mesma, mas recusa o destino que oferece a si e nos avisa: “não é nada fácil escrever sobre o nada”. Mas, o aviso que chega até nós tem outro endereço... é uma espécie de nota mental deixada ali para seus escritos-futuros, como se soubesse que iria adquirir consciência — em algum momento — de que não seria fácil se dedicar novamente a um livro, onde iria se permitir ser mar.

O livro inteiro é um mapa de vivências... e confesso que entrelacei minhas memórias em cada linha de vida da poeta-mulher — misturando-as, como se eu estivesse a dialogar com ela — coisas minhas-secretas-silenciosas — estabelecendo uma espécie de troca.

Me vi arrumando a minha mesa, escolhendo as canetas-canecas-tipo-de-papel... e as notas mentais esquecidas em livros-cadernos-cantos. Me despedi de pessoas queridas, dei um passo atrás para enxergar tudo por outro ângulo.

...e esqueci rascunhos meus — escritos em pedaços de papel — dentro do livro, para um reencontro futuro. E, de repente, a sensação era a de embarcar num comboio e, depois de estar confortavelmente acomodada em minha poltrona, com a janela aberta para futuras-paisagens, sentir o lugar ao lado ser ocupado por essa persona-estranha-e-conhecida, que tem em mãos um velho moleskine... que eu espio de canto de olho — percebendo, ao virar das páginas, pequenos detalhes: a caligrafia errática, os recortes de papel soltos entre páginas, fotografias presas por um pedaço de fita crepe...

Iniciamos, sem perceber, esse diálogo de vivências — e a viagem passa sem que a gente perceba, e o fim do livro-viagem chega. Me sinto à deriva, a rever as estações, os lugares, o livro a mim e à persona em estado de quase-partida.


Fecho o livro, desembarco, mas permaneço a bordo... 



__________________________________


“uma súbita lufada de vento sacode os galhos das árvores, espalhando seu redemoinho de folhas que refletem a luminosidade de forma fantasmagórica. Folhas como vogais, sussurros de palavras como um alento livre. Folhas são vogais. Eu as espalho na esperança de encontrar as combinações que procuro. A linguagem dos deuses menores. Mas e o próprio Deus? Qual é a sua linguagem? Qual é o seu prazer? Será que ele mistura versos de Wordsworth, as frases musicais de Mendelssohn e vivencia a natureza como os gênios a concebem? Sobe a cortina. A ópera humana se desdobra. E na caixa reservada para os reis, mais trono que caixa, está o Todo-Poderoso”. Pág 132

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Linha M
Patti Smith
Tradução Claudio Carina
Editora Companhia das Letras


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Olá! Me chamo Anália. Criei este espaço para quem está levando a própria vida a sério. Reflexões sobre amadurecimento, relações interpessoais, livros e a busca por uma vida mais simples, consciente e significativa. Fico grata por sua presença ♥

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