Estamos emburrecendo?

by - outubro 15, 2026

Entenda como IA, algoritmos e excesso de tecnologia podem afetar o pensamento crítico e como recuperar nossa autonomia

Por vezes me pergunto se estamos ficando inteligentes demais para algumas coisas e preguiçosos demais para outras. Temos respostas para quase tudo. Basta perguntar. Se não sabemos alguma coisa, pesquisamos. Se não sabemos escrever, pedimos ajuda. Se não sabemos decidir, procuramos opiniões. Se não conseguimos resolver um problema, existe sempre alguma ferramenta pronta para nos mostrar o caminho. E eu também faço isso. A ironia não me escapa. Talvez seja justamente por isso que tenho pensado tanto sobre o assunto.

A tecnologia tornou a vida mais fácil em muitos aspectos. Não precisamos mais passar horas procurando uma informação, fazendo cálculos complicados ou tentando descobrir sozinhos algo que alguém já descobriu antes de nós. Temos ao alcance das mãos uma quantidade de conhecimento que nenhuma outra geração teve. E isso é extraordinário mas me pergunto: será que toda facilidade é necessariamente boa para nós?

Porque pensar dá trabalho. É muito mais fácil receber uma resposta do que permanecer alguns minutos diante de uma pergunta. É mais confortável pedir uma opinião do que construir a nossa. É mais rápido procurar uma solução pronta do que tentar, errar, recomeçar e finalmente descobrir sozinhos. E seja justamente nesse esforço que alguma coisa dentro de nós se desenvolva. Lembro-me de quando não tínhamos respostas tão imediatas. Quando precisava esperar. Era preciso perguntar para alguém, procurar em um livro, observar, experimentar. Às vezes, simplesmente não sabíamos e tava tudo bem.

Quem sabe tenhamos perdido um pouco a capacidade de conviver com o “não sei”. Hoje queremos respostas rápidas para tudo. Queremos entender imediatamente, resolver imediatamente, saber imediatamente. Até os nossos pensamentos precisam de pressa e uma mente que nunca precisa se esforçar pode acabar se acostumando com o caminho mais fácil. Não acho que o problema seja usar tecnologia. Seria estranho pensar assim. Ela faz parte da nossa vida e pode ser uma ferramenta maravilhosa. O problema começa quando deixamos de usá-la como ferramenta e passamos a depender dela para aquilo que ainda poderíamos fazer sozinhos.

Quando não tentamos lembrar porque podemos pesquisar. Quando não tentamos escrever porque podemos pedir que alguém escreva. Quando não tentamos pensar porque podemos simplesmente perguntar. Acredito que a inteligência artificial não esteja nos deixando menos inteligentes. Talvez ela esteja apenas revelando o quanto somos tentados a escolher o caminho que exige menos esforço e isso não acontece apenas com a tecnologia. Acontece com tudo. Com a leitura, quando preferimos resumos ao livro inteiro. Com as relações, quando substituímos conversas profundas por pequenas interações. Com a nossa própria vida, quando procuramos respostas prontas para perguntas que só nós podemos responder.

Tenho pensado que precisemos recuperar o prazer de descobrir algumas coisas sozinhos. Tentar antes de perguntar. Pensar antes de pesquisar. Escrever antes de pedir ajuda. Ficar alguns minutos diante de um questionamento sem precisar preenchê-la imediatamente. Porque existe uma parte da nossa inteligência que só permanece viva quando a exercitamos. E não ter pressa de chegar à resposta. Ainda precisemos errar. Precisemos duvidar. Precisemos mudar de ideia. Precisemos passar algum tempo em silêncio, apenas nós e os nossos pensamentos. 

Porque uma máquina pode nos oferecer uma resposta em segundos mas ela não pode decidir o que aquela resposta significa para a nossa vida. Essa parte continua sendo nossa. Esse é o verdadeiro desafio dos nossos dias: aprender a utilizar tudo aquilo que a tecnologia nos oferece sem entregar a ela aquilo que ainda precisamos fazer com a nossa própria mente. Afinal, talvez não seja tão importante saber todas as respostas. Talvez seja mais importante não perder a capacidade de fazer as perguntas.


Beijos e até a próxima.

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