Estão ganhando dinheiro com a nossa dor

by - novembro 01, 2026

monetização da dor, consumo e fragilidade humana

A economia da atenção transforma nossas inseguranças, 
carências e comparações em oportunidades de consumo.

Uma das coisas mais inquietantes do nosso tempo é perceber que até aquilo que sentimos pode se transformar em mercadoria. Não estou falando apenas de comprar alguma coisa quando estamos tristes, ansiosos ou inseguros. Isso sempre existiu. A questão é mais profunda: nossas emoções passaram a ser observadas, medidas e utilizadas para manter nossa atenção presa a determinados produtos, plataformas e promessas. Não é necessário que alguém invente uma dor para lucrar com ela. Basta perceber uma necessidade humana, transformá-la em comportamento recorrente e criar um mercado ao redor dela.

A solidão, por exemplo, não foi criada pelas redes sociais. O desejo de ser amado também não nasceu com a publicidade. O medo de envelhecer, a insegurança com a aparência, a necessidade de aprovação e a sensação de estar ficando para trás sempre fizeram parte da experiência humana. O que mudou foi a capacidade de transformar essas emoções em dados, estímulos e oportunidades de consumo.

Hoje, aquilo que desperta nossa atenção pode ser identificado com uma precisão que antes não existia. As plataformas observam o que vemos, quanto tempo permanecemos em determinado conteúdo, o que repetimos, o que ignoramos e aquilo que nos faz voltar. A nossa atenção deixou de ser apenas uma capacidade mental e passou a ser também um recurso econômico.

É por isso que tantas coisas disputam nossos olhos ao mesmo tempo. Notícias, vídeos, anúncios, opiniões, fotografias, recomendações e promessas aparecem continuamente diante de nós. Cada conteúdo tenta conquistar alguns segundos da nossa presença, porque esses segundos podem ser convertidos em visualizações, dados, publicidade e dinheiro.

O mercado da atenção não precisa necessariamente nos oferecer algo de que precisamos. Muitas vezes, ele precisa apenas nos manter interessados e existe a diferença entre atender a uma necessidade e alimentar uma inquietação para que ela continue produzindo consumo. Uma pessoa que está com fome procura alimento. Depois de comer, a necessidade diminui. Mas uma pessoa que se sente inadequada pode passar muito tempo consumindo conteúdos sobre beleza, roupas, procedimentos, exercícios e estilos de vida sem jamais alcançar a sensação de que finalmente está bem consigo mesma. A promessa não precisa ser cumprida por completo. Ela precisa apenas continuar parecendo possível.

O mesmo acontece com a comparação. Não foi a internet que inventou o desejo de ter uma vida bonita. Porém, nunca tivemos acesso tão constante à vida editada de tantas pessoas. Antes, comparávamos nossa realidade com aquilo que encontrávamos ao nosso redor. Agora podemos compará-la, durante o dia inteiro, com milhares de versões cuidadosamente selecionadas da existência alheia. Vemos viagens, relacionamentos, casas, corpos, conquistas e momentos felizes. Raramente vemos o que ficou fora da fotografia: a dúvida, a dívida, a solidão, o conflito, o cansaço e o fracasso. Mesmo assim, somos levados a comparar a totalidade da nossa vida com pequenos recortes da vida dos outros.

A comparação produz desconforto. O desconforto aumenta a busca por respostas e a busca por respostas nos mantém consumindo. Talvez seja assim que uma dor íntima se transforma em um ciclo econômico. Não é preciso que alguém nos diga diretamente que somos insuficientes. Basta que sejamos expostos, repetidas vezes, a tudo aquilo que parece nos faltar. Não é necessário afirmar que estamos atrasados. Basta mostrar constantemente quem está avançando. Não é preciso criar a solidão. Basta oferecer uma conexão que nos mantenha ocupados, mas que nem sempre nos faça sentir verdadeiramente acompanhados.

É nesse ponto que a tecnologia se torna especialmente poderosa. Ela consegue nos oferecer exatamente aquilo que tem maior chance de prender nossa atenção, inclusive quando esse conteúdo desperta emoções difíceis. Podemos entrar em uma plataforma por curiosidade e permanecer nela por comparação, indignação, desejo ou insegurança.

A atenção não precisa ser conquistada apenas pelo que nos faz bem. Às vezes, ela é capturada justamente pelo que nos incomoda. Uma notícia preocupante pode nos fazer procurar outra. Uma fotografia pode despertar uma comparação. Um comentário pode provocar raiva. Uma promessa pode alimentar esperança. Uma vida aparentemente perfeita pode produzir a sensação de que precisamos mudar imediatamente a nossa.

Enquanto continuamos olhando, alguém está monetizando aquele tempo. Isso não significa que toda empresa esteja conscientemente tentando nos ferir ou que todo conteúdo seja uma forma de manipulação. Seria simplista afirmar isso. O problema está em um modelo que recompensa a permanência, a repetição e o envolvimento constante, mesmo quando aquilo que nos mantém conectados não contribui necessariamente para o nosso bem-estar. Em uma economia baseada na atenção, a pergunta principal deixa de ser apenas “o que é bom para você?” e passa a ser “o que fará você continuar aqui?”. Tem uma passagem bíblica que sempre me faz pensar sobre isso. Jesus disse:
 “Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz.” Mateus 6:22
Naquele contexto, Jesus falava sobre aquilo que orienta o nosso interior. E é difícil não relacionar essa imagem com os nossos dias. Aquilo que observamos repetidamente começa a ocupar espaço dentro de nós. O que vemos influencia o que desejamos, o que tememos e a maneira como passamos a enxergar a própria vida. Por isso, cuidar dos olhos também pode significar cuidar da atenção. Nem tudo o que aparece diante de nós precisa entrar em nossa mente. 

A vida moderna nos ensinou a tratar qualquer intervalo como uma oportunidade de consumo. Se estamos esperando, pegamos o celular. Se estamos sozinhos, procuramos alguém. Se estamos cansados, buscamos distração. Se sentimos alguma inquietação, tentamos preenchê-la imediatamente. Quase nunca permanecemos tempo suficiente diante de uma emoção para compreender o que ela está tentando nos dizer.

A tristeza pode ser interrompida por um vídeo. A solidão pode ser disfarçada por uma sequência de conversas superficiais. A insegurança pode ser compensada por uma compra. A dúvida pode ser abafada por opiniões alheias. O silêncio pode ser preenchido antes mesmo de se tornar perceptível. E, quando fazemos isso repetidamente, talvez deixemos de distinguir aquilo que realmente precisamos daquilo que apenas aprendemos a desejar.

Não acho que devamos rejeitar o comércio, a tecnologia ou a publicidade. Eles fazem parte da sociedade e também podem oferecer soluções úteis, beleza, conhecimento e oportunidades. O problema começa quando nossas fragilidades são tratadas apenas como portas de entrada para o consumo, sem que nos perguntemos se estamos sendo ajudados ou apenas mantidos insatisfeitos.

Uma pessoa que aprende a ficar em silêncio não precisa preencher cada intervalo. Quem se sente confortável com a própria companhia não precisa procurar constantemente sinais de pertencimento. Quem compreende o próprio valor não é tão facilmente convencido de que precisa se transformar em outra pessoa para merecer amor. Quem conhece suas necessidades consegue distinguir melhor o que é essencial daquilo que foi apresentado como urgente.

Isso não nos torna imunes ao mercado da atenção. Continuamos sendo humanos, com desejos, medos e carências mas podemos nos tornar mais conscientes da maneira como essas emoções são utilizadas. Podemos perceber quando estamos consumindo algo por escolha e quando estamos tentando aliviar uma dor que não compreendemos. Podemos observar se determinado conteúdo nos informa ou apenas nos agita. Podemos perguntar por que continuamos voltando a um lugar que nos deixa cansados. Podemos reconhecer que nem toda vontade precisa ser atendida imediatamente.

A liberdade comece quando deixamos de obedecer automaticamente a cada estímulo. O  problema não é sentir. Sentir não é uma fraqueza. Ter medo, desejar amor, sentir solidão ou querer ser reconhecido faz parte da vida. O problema central é acreditar que toda dor precisa ser resolvida por uma compra, uma imagem, uma experiência, uma opinião ou uma presença digital.

Algumas dores precisam de tempo, de conversa, amizade, descanso, cuidado e fé. Há sentimentos que não desaparecem porque encontramos mais uma coisa para consumir. Às vezes, eles apenas ficam esperando o momento em que finalmente teremos coragem de olhar para eles, é por isso que precisamos proteger a nossa atenção. Não porque tudo ao nosso redor seja mau, mas porque a atenção é uma das poucas coisas que entregamos sem perceber e que dificilmente conseguimos recuperar depois.

O dinheiro pode ser perdido e recuperado. Um objeto pode ser comprado novamente. Uma oportunidade pode reaparecer. Mas as horas que passamos distraídos, comparando nossa vida com a dos outros ou tentando preencher uma falta que não compreendíamos não voltam da mesma maneira. No fim, a pergunta é: o que estamos deixando de viver enquanto tentamos fugir dela?

Porque, em uma época em que quase tudo pode ser transformado em produto, preservar a própria atenção é uma das formas mais sublimes de liberdade e viver com mais consciência não signifique abandonar o mundo, mas aprender a reconhecer quando ele está apenas tentando nos vender uma resposta para uma dor que precisa, antes de tudo, ser compreendida.


Beijos e até a próxima.


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